• Aline Pigozzi

“Não” ao embate cristão e “Sim” ao Ecumenismo


500 anos de Reforma suscita o diálogo e a busca pela unidade de católicos e evangélicos

“Lutero foi ‘um remédio’ para a Igreja Católica”, declara o Papa Francisco sobre os 500 anos da Reforma Protestante, completados em 2017.

A posição do Papa frente o homem que desencadeou a divisão entre Igreja Católica e Evangélica reforça a crescente consciência de que as lutas do século XVI entre católicos e luteranos estão sendo superadas.

O monge agostiniano Martinho Lutero foi o grande motivador da Reforma que marcou profundamente a Europa e o Ocidente em geral, mesmo sem a pretensão de tê-lo sido, como assegura o Presidente do Pontifício Comitê das Ciências Históricas, Padre Bernard Ardura: “Ele queria fazer uma reforma dentro da Igreja, porém, houve pressões de todas as partes, desembocando posteriormente em uma ruptura”.

Quando divulgou suas 95 Teses – diz a lenda – na porta da Igreja do Castelo de Wittembergo, na Alemanha, em 31 de outubro de 1517, o monge quis apenas suscitar uma discussão sobre a legitimidade bíblica da venda de indulgências para alcançar o perdão de Deus.

Essa prática era realizada pelo clero da época, o que foi considerado por

Lutero um abuso, uma vez que a salvação vem apenas pela fé por graça de Deus, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

As ideias defendidas pelo monge não foram aceitas pela Igreja e, por pelo menos quatro décadas, ele foi declarado herege.

O Concílio Vaticano II que, de 1962 a 1965, reuniu em Roma todos os bispos católicos para levar adiante a renovação da Igreja, foi o acontecimento que abriu caminhos para novas posições, entre elas, a compreensão das intenções de Lutero e a adesão ao movimento pela unidade dos cristãos.

A comemoração dos 500 anos

Mais do que cinco séculos da Reforma, o ano de 2017 também marca os 50 anos de diálogo luterano-católico. Para comemorar, a Comissão Luterano-Católica para a Unidade redigiu o documento intitulado "Do conflito à comunhão”, que procura compreender as consequências históricas da Reforma, a partir do consenso entre as duas vertentes cristãs.

Para concluir o documento, a Comissão identificou cinco imperativos de conduta para católicos e luteranos, sendo o primeiro deles: “Mesmo que as diferenças sejam mais facilmente visíveis, católicos e luteranos devem sempre partir da perspectiva da unidade e não da divisão”.

Além da publicação, as comemorações também contaram com uma celebração ecumênica realizada em outubro de 2016, em Lund, na Suécia, com a presença do Papa Francisco.

Para o historiador do cristianismo e pastor valdense Paolo Ricca, foi uma novidade absoluta, porque é a primeira vez na história que um papa participa publicamente da celebração da Reforma. “A presença do papa em Lund modifica profundamente esse veredito negativo e envolve um juízo positivo: a Reforma foi, em seu conjunto, um bem”, confirmou Ricca.

São nítidos os esforços de católicos e evangélicos na busca pelo ecumenismo. Haja vista os pontos de fé já consensuais sobre a Bíblia como única fonte de fé, o sacerdócio real de todas as pessoas batizadas e a convicção de que Jesus Cristo é o único salvador.

No entanto, ainda há muito que percorrer neste diálogo, como afirma Paolo Ricca. Segundo ele, pelo menos dois grandes motivos ainda afastam a plena comunhão: o reconhecimento das Igrejas evangélicas como Igrejas de Jesus Cristo e não como ‘comunidades eclesiais’ e a falta de uma plataforma doutrinal comum, formulada juntos.

Ainda assim, os avanços adquiridos nos últimos anos em prol da unidade são louváveis. Reconhecer as parcelas de responsabilidade católica e luterana na história e trabalhar para solucioná-las é reconhecer, como afirmou o Papa João XXIII, que “o que nos une é maior do que o que nos divide”.

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