• Aline Pigozzi

A ilusão de ética da sociedade brasileira

O que falta para o Brasil é se apropriar do que já foi ensinado

Falar sobre ética até parece desnecessário, já que o tema é tão óbvio, certo? Errado! A cada dia, a sociedade presencia novos e lamentáveis episódios de quebra de conduta e desrespeito nas mais diversas áreas da convivência.

É preciso pensar duas vezes ante de levar um celular para o conserto, devido ao risco de ter suas fotos divulgadas; ou ficar em alerta para que um paciente em tratamento no hospital não seja exposto pela equipe médica. Isso, sem mencionar os tantos casos de corrupção sem medida, que acontecem em escala global.

O que há de errado? Em uma sociedade evoluída, em pleno século XXI, com avanços em tecnologia, ciências, artes... Por que a falta de ética ainda está tão presente? Será que está faltando essa matéria nas escolas e faculdades? A culpa é da família, que não educa direito? Ou dos códigos de ética, que já estão ultrapassados?

Não dá para falar sobre ética sem tocar na ferida toda. Esse é um tema delicado no mundo todo, principalmente no Brasil, que sofre com a falta de ética arraigada em seus primórdios.

Desvendando o problema do início

O teólogo e professor Leonardo Boff, em seu texto “Causas da escandalosa falta de ética no Brasil”, faz uma profunda análise sobre os motivos que levaram o Brasil a ser contaminado, como ele mesmo afirma, por uma espantosa falta de ética.

A começar pela colonização do país, marcada pela submissão do povo, pelos abusos e pela relação desigual de senhor e escravo, que obrigava o colonizado a mentir, a esconder intenções e a fingir em nome da sobrevivência. O que levou a uma corrupção da mente.

Em seguida, veio a abolição da escravatura, que culminou na formação de favelas e na discriminação dos negros, uma vez que estes foram alforriados, mas sem nenhuma condição digna de moradia e trabalho.

Com a República e as relações de produção capitalistas, vieram a exploração, a dependência da população pobre e as injustiças que assolam os brasileiros até hoje, com hábitos e práticas presentes no inconsciente coletivo da sociedade.

Neste contexto, Boff também analisa as instituições cristãs e critica sua fraca atuação de formar cidadãos mais conscientes do amor ao próximo. “Como é possível que num país majoritariamente cristão vigore tanta injustiça, insensibilidade, discriminação social e humilhação de negros e pobres? Alguma coisa errada ocorreu em nossos processos de transmissão da mensagem libertadora e humanizadora de Jesus”, questiona o teólogo.

A solução é simples, mas complicada

Leonardo Boff conclui seu texto enfatizando que a crise geral do Brasil só será superada quando houver uma profunda transformação da sociedade. Como fazer isso? As pistas, segundo ele, estão na Bíblia.

”Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem nenhuma”; “Não exija mais do que a taxa definida”; “Não pratiques torturas nem chantagens contra ninguém e contente-se com seu salário”... Parece atual, mas já era ensinado há mais de dois mil anos nas pregações de São João Batista, precursor de Jesus Cristo.

Assim como os dez mandamentos, que são orientações universalmente válidas para qualquer situação. Afinal, todos, independente de religião, devem respeitar o próximo, não roubar, não matar, não cometer adultério etc.

A família, como aponta Boff, também tem sua parcela de responsabilidade na formação de uma sociedade ética. Basta criar caráter nos filhos, formá-los na busca do bem e da verdade e ensiná-los a tratar humanamente a cada ser humano.

Tudo parece simples, mas, na verdade, é uma tarefa árdua. No entanto, quando as pessoas se apropriarem disso e começarem a agir com mais ética e menos “jeitinho”, desde os pequenos gestos do dia-a-dia, a consciência social vai crescer de modo orgânico e o país não viverá mais de ilusão, mas de realidade.

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